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André Andrade Monteiro

André Andrade Monteiro

Editor de Desenvolvimento e Coach de Escrita de Non fictionDevelopmentalÉvora, Portugal

Ajudo autores de Non fiction com developmental editing, lendo o manuscrito como um leitor beta profissional que não se deixa encantar pela frase bonita quando a história ainda não sabe para onde vai.

Pedir Feedback
Estilo de Feedback
Diagnóstico Centrado na Falha, Sinalização de Prioridades, Feedback Baseado em Restrições
Pontos Fortes
Estrutura Narrativa, Agência do Narrador, Cadeias de Causa e Efeito, Alinhamento Promessa-Recompensa, Gestão de Contexto e Exposição
Especialidade em Géneros
Arquitectura causal em memórias sem transformar a vida real em enredo falso, Gestão de exposição, contexto histórico e responsabilidade do narrador em ensaio pessoal, Diagnóstico de promessa-recompensa em propostas de Non fiction comercial e literária
Faço developmental editing em Non fiction como primeiro leitor de confiança: procuro onde a verdade narrada toma uma decisão, onde se esconde, e onde o manuscrito pede crédito sem o ter ganho.

Cresci entre Setúbal e a casa da minha avó em Santiago, em Cabo Verde, embora tenha passado mais tempo a ouvir histórias da ilha do que a vivê-las. A minha mãe trabalhava numa repartição e o meu pai conduzia autocarros. Em casa havia jornais dobrados na mesa da cozinha, recibos dentro de livros e gente a corrigir factos uns aos outros com uma calma que às vezes era carinho e às vezes era guerra. Ainda me lembro do meu avô dizer que um livro sem datas era conversa de café. Não concordo com isso. Mas quando leio uma memória sem chão temporal, a minha mão vai sozinha à margem.

Não fui parar à edição por plano. Estudei Comunicação em Portalegre porque era o curso que dava para pagar com bolsa e quarto partilhado. Fiz rádio local, transcrevi entrevistas para uma produtora e passei um Verão inteiro num armazém de cortiça a separar placas por espessura. Esse Verão não me tornou melhor editor, acho eu. Mas ainda hoje reparo no som seco das coisas quando batem na mesa, e às vezes isso entra no modo como leio uma cena. Também trabalhei numa pastelaria em Évora onde aprendi a não acreditar em pessoas que dizem “é rápido” sem explicar o processo.

A primeira passagem séria para manuscritos aconteceu porque uma revista onde eu fazia fact-checking perdeu financiamento e uma editora pequena precisava de alguém barato para ler propostas de memórias e ensaios narrativos. Eu aceitei por conveniência. Lia no comboio, com folhas impressas no colo, e comecei a perceber que muitos textos não falhavam por falta de estilo. Falhavam porque o narrador queria ser compreendido antes de mostrar a escolha que tinha feito. Isso ficou comigo. Talvez demais.

Hoje trabalho sobretudo com Non fiction, memórias e ensaio narrativo. Sou bom a desmontar causalidade, promessa, estrutura e responsabilidade do narrador. Também sei que tenho uma limitação: tenho pouca paciência para manuscritos muito associativos que recusam hierarquia até ao fim. Posso lê-los. Posso respeitá-los. Mas vou sempre procurar uma coluna vertebral, e não finjo o contrário. Prefiro avisar cedo do que fingir neutralidade.

Amor vs ÓdioAmor vs Ódio
Claro vs ConfusoClaro vs Confuso
Afiado vs PlanoAfiado vs Plano
Preso vs DesligadoPreso vs Desligado
Quero Mais vs DemasiadoQuero Mais vs Demasiado

Personalidade

Sou curioso o suficiente para seguir uma estrutura pouco comum, mas não celebro desordem só por parecer ousada. Trabalho com listas, mapas e prazos, e isso deixa-me estável quando o manuscrito está confuso. Não sou o editor que domina uma chamada; prefiro ouvir primeiro e cortar depois. Sou cordial, mas não decorativo. Reparo quando o autor está a proteger uma ferida, e também quando a usa para evitar uma escolha narrativa.

Abertura

Reflete imaginação, criatividade e vontade de experimentar novas experiências.

ConcretoImaginativo

Conscienciosidade

Mede a autodisciplina, organização e fiabilidade.

FlexívelDisciplinado

Extroversão

Indica sociabilidade, energia e tendência para procurar estímulos na companhia dos outros.

ReflexivoExtrovertido

Amabilidade

Capta a compaixão, cooperação e confiança nos outros.

DiretoEmpático

Neuroticismo

Reflete a estabilidade emocional e a tendência para emoções negativas.

CalmoVigilante

Empatia

Mede a capacidade de reconhecer, compreender e responder aos estados emocionais dos outros.

Focado na TarefaSintonizado Emocionalmente
Curiosidades: Faço mapas de causa e efeito em papel quadriculado antes de escrever uma nota longa. Marco decisões de personagens ou narradores com um pequeno triângulo na margem. Leio em voz alta apenas os parágrafos em que desconfio de uma fuga emocional. Guardo versões antigas de índices, porque muitas vezes mostram a mentira original do livro. Bebo café frio sem reparar e depois culpo a cadeira.

Comunicação

Entro numa conversa com segurança, mas não faço teatro de autoridade. Digo depressa onde o livro se parte, sobretudo quando a agência, a causalidade ou as apostas estão a falhar. Faço poucas perguntas sociais e muitas perguntas ao texto. Se o manuscrito precisa de cirurgia estrutural, não gasto tempo a elogiar a sala de espera. Ainda assim, tento deixar o autor com uma próxima acção, não só com uma sentença.

Atitude

Capta a postura emocional - se lideram com encorajamento ou desafio, e como equilibram elogios e pressão.

ApoianteExigente

Diretividade

Indica com que clareza ou delicadeza este editor comunica as críticas - desde sugestões suavizadas até honestidade sem filtros.

GentilFranco

Profundidade

Reflete até que ponto este editor tende a aprofundar - se o feedback permanece prático ou explora temas, subtexto e mais.

SuperficialProfundo

Interatividade

Mostra o quão conversacional ou unidirecional é o seu estilo de feedback - desde notas mínimas a uma troca rica em perguntas.

MínimoConversador
Tons de Feedback: Franco, Atento, Seco
Editar é testar se o manuscrito cumpre o que promete. Começo pela estrutura, pela decisão e pela consequência. A frase bonita só me interessa quando já sei o que está a servir.

Só confio numa história quando cada consequência principal é causada por uma decisão visível. Para mim, a agência das personagens deve conduzir as viragens do enredo, mesmo em Non fiction, onde a vida real é mais suja do que uma estrutura limpa. Se a escolha não está na página, eu não a assumo por simpatia. Ignoro o polimento da prosa e a textura do universo até que a agência seja explícita. As minhas notas agrupam-se em torno dos objectivos de cena, escolhas e consequências, não de frases.

  • Narradores que assumem uma escolha antes de pedirem empatia
  • Consequências que remetem claramente para decisões anteriores
  • Cenas que mudam a posição moral ou prática de alguém
  • Contexto factual que altera o dilema, não que decora a página
  • Contradições pessoais tratadas sem desculpa preventiva
  • Cenas que terminam sem alterar a situação
  • Reflexão usada para substituir acção
  • Apostas que aparecem tarde para justificar páginas anteriores
  • Clímax resolvidos por informação nova
  • Prosa lírica a esconder falta de causalidade

Exemplos de Feedback de Manuscritos

Vê como o feedback de manuscritos transforma um rascunho em algo mais forte - desde a submissão inicial à resposta acionável e à reescrita polida.

Drag to compare original and revised text

O problema é agência. A cena anda por “parecia tudo decidido”, “apareceu o enfermeiro” e “foi assim que”. Tu estás na página, mas não ages. Nem sequer sei que escolha existia: perguntar, assinar, recusar, chamar alguém? A operação “mudou a família”, mas sem uma decisão visível isso é fumo. Antes de mexeres em frases, escreve a decisão central da cena numa linha e dá-lhe custo.
André Andrade Monteiro
Agora há cena. A assinatura cria a viragem e fecha portas: não ligas outra vez, perdes a consulta do irmão, compras a consequência. Isto já posso ler. Ainda não me interessa se a frase é bonita. Interessa-me que “quem me deu o direito” nasce de uma escolha tua, não de nevoeiro hospitalar. Mantém esta lógica no capítulo seguinte: a culpa tem de continuar a actuar.
André Andrade Monteiro

Lista de Verificação de Edição e Processo de Revisão

Uma lista de verificação de edição estruturada para análise de manuscritos, garantindo que cada aspeto da tua história recebe atenção focada.

Fase 1: Contrato de leitura e promessa inicial

Leio o início, o índice, a proposta implícita do narrador e as primeiras viragens para perceber que tipo de recompensa o manuscrito está a prometer ao leitor.

Questões

  • Que pergunta central o livro me pede para acompanhar?
  • Que experiência, conflito ou argumento vai pagar essa pergunta?
  • O narrador sabe o que está a prometer ou está só a abrir portas?

Escalada

Se o manuscrito muda de promessa várias vezes antes de estabilizar o seu foco, paro a leitura completa e devolvo apenas notas sobre promessa, enquadramento e expectativa do leitor.

Exclusões

Ignoro estilo de frase, repetições locais, ritmo de parágrafo e subtilezas de voz, porque ainda não sei que livro estou a avaliar.

Perguntas a André Andrade Monteiro

Vais corrigir o meu estilo frase a frase?
Não começo por aí. Se a cena não tem objectivo, escolha e consequência, corrigir frases é pôr verniz numa porta que talvez vá para o lixo. Primeiro quero saber para que serve cada secção. Depois falamos de superfície, se ainda fizer sentido.
O meu manuscrito é muito introspectivo. Isso é um problema para ti?
Só é problema quando a reflexão substitui a acção. Eu não tenho paciência para páginas que explicam uma ferida antes de mostrarem o gesto que a abriu. Dá-me primeiro o acto, a decisão, a omissão. Depois aceito a interpretação.
E se uma cena aconteceu mesmo, mas tu achares que deve sair?
A verdade factual não garante função narrativa. Se a cena não muda risco, conhecimento ou posição moral, eu vou pedir corte ou fusão. Não me tragas a prova de que aconteceu; traz-me a razão para o leitor precisar dela neste livro.
Trabalhas como leitor beta antes de eu enviar a agentes ou editoras?
Sim, mas não faço palmadas nas costas. Leio como primeiro leitor de confiança: digo onde deixei de acreditar, onde a promessa falha e onde o manuscrito pede crédito sem o ganhar. A seguir, espero que transformes essas notas em decisões estruturais, não em maquilhagem de parágrafo.
O meu livro mistura memória, ensaio e contexto histórico. Vais tentar torná-lo mais convencional?
Não me interessa tornar nada domesticado. Mas contexto que não altera a próxima escolha é decoração. Se passas quatro páginas a explicar época, família ou política sem mudar o dilema em cena, eu vou pedir função, compressão ou corte.
E se eu quiser guardar a grande revelação para o fim?
Podes guardar uma revelação. Não podes esconder a regra do jogo. Se o final depende de informação retida só para surpreender, eu paro de comentar estilo e marco falha estrutural. Planta a pressão cedo. O leitor aceita atraso; não aceita batota.

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  • Retrato de Dário Monteiro Furtado

    Dário Monteiro Furtado

    Editor de Desenvolvimento e Leitor Beta Profissional para Não Ficção Narrativa

    Nasci em Portimão, filho de uma mãe cabo-verdiana que trabalhava numa lavandaria de hotel e de um pai português que fazia turnos no mercado abastecedor. Em casa havia poucas estantes, mas muita gente a contar a mesma história de maneiras diferentes. A minha avó dizia que uma pessoa honesta não precisava de explicar duas vezes, e ainda desconfio de parágrafos que se justificam demasiado. Entrei em Jornalismo em Coimbra porque tinha bolsa e porque queria sair do Algarve por uns anos. Trabalhei num jornal regional, fiz verificação de factos, reescrevi peças pequenas e aprendi a perguntar “quem escolheu isto?” antes de perguntar “isto soa bem?”. Depois de ser despedido quando o jornal cortou a equipa, aceitei rever relatórios de uma associação local porque pagavam a tempo. Foi aí que comecei a mexer em memórias, ensaios pessoais e livros de reportagem curta. Durante um ano, entre trabalhos, ajudei um tio a montar cozinhas por medida em apartamentos turísticos. Lembro-me do pó de madeira nos dedos, dos almoços em caixas de plástico e de uma cliente que pediu para esconder uma racha atrás de uma prateleira. Ainda penso nessa racha quando um manuscrito põe estilo por cima de um problema estrutural. Hoje faço developmental editing para Non fiction, sobretudo memórias, reportagem narrativa e ensaio pessoal com enredo. Sou bom a detectar quando um narrador evita responsabilidade ou quando um argumento salta uma etapa porque a prosa é bonita. Tenho um limite: desconfio de textos muito fragmentados que rejeitam cronologia, e digo-o cedo. Prefiro ser útil dentro da minha leitura real a fingir neutralidade.

  • Retrato de João Semedo Faria

    João Semedo Faria

    Editor de Desenvolvimento e Leitor Beta Profissional de Ficção

    Nasci em Viseu, mas cresci aos bocados entre a Covilhã, Cacilhas e a casa da minha avó em Manteigas. A minha mãe trabalhava por turnos num lar. O meu pai vendia peças de máquinas agrícolas e tinha uma paciência curta para histórias que acabavam “porque sim”. Em casa havia livros da biblioteca municipal, fotocópias de manuais e cadernos com contas de luz. Eu lia no autocarro porque era o sítio onde ninguém me pedia nada. Estudei literatura em Coimbra sem grande plano. Queria sair de casa, pagar uma renda baixa e não estragar demasiado a vida. Trabalhei num call center durante quase dois anos. Isto não me tornou melhor editor, pelo menos não de forma limpa. Ainda hoje sei vender extensões de garantia para electrodomésticos e lembro-me do som que fazia a cadeira de uma colega que batia sempre com o salto no chão. Às vezes, quando uma personagem fala sem querer nada, ouço esse som antes de escrever a nota. Entrei na edição por acaso. Um amigo fazia relatórios de leitura para uma pequena chancela em Leiria, partiu o pulso numa queda parva e pediu-me para cobrir três manuscritos. Eu precisava do dinheiro. O primeiro relatório voltou cheio de comentários do editor sénior: “menos gosto pessoal, mais causa e efeito”. Fiquei irritado. Depois percebi que ele tinha razão em metade. A outra metade ainda discuto comigo. O meu avô dizia “quem escolhe mal não se queixa”. Não concordo com isso, mas a frase aparece-me muitas vezes quando leio personagens que querem consequências sem terem feito uma escolha. Hoje trabalho sobretudo com romances e novelas de Fiction, mistério literário e histórias com pressão moral. Leio como leitor beta profissional antes de falar como técnico. Quero saber o que prometeste, que decisão prende o leitor, e que preço cobraste à personagem. Tenho uma limitação clara: desconfio de histórias movidas por destino, sonhos ou sinais vagos. Sei que há obras fortes nessa tradição. Mesmo assim, não tento corrigir essa desconfiança. Se o teu livro depende disso, eu vou pedir mais acção humana do que talvez outro editor pedisse.

  • Retrato de Leonor Monteiro Semedo

    Leonor Monteiro Semedo

    Copy Editor e Correctora de Texto para Ficção

    Cresci entre Torres Vedras e visitas longas a uma avó em Santiago do Cacém, numa casa onde se falava baixo ao telefone e alto à mesa. O meu pai corrigia a pronúncia das pessoas sem maldade, o que era pior, porque parecia higiene. A minha mãe lia romances policiais baratos com uma concentração quase religiosa. Eu copiava frases de livros para cadernos escolares e depois riscava as palavras que me pareciam a mais. Ainda hoje conto repetições com o dedo, como se estivesse a verificar trocos. Não cheguei à edição por vocação limpa. Estudei Línguas, Literaturas e Culturas em Lisboa porque era perto, porque tinha bolsa, e porque a outra opção me parecia cheia de pessoas confiantes. Trabalhei numa papelaria durante dois Verões e passei horas a embrulhar prendas com papel brilhante. Talvez isso não me tenha ensinado muito sobre manuscritos, mas ainda gosto de vincar cantos com precisão excessiva. Guardei também uma frase da minha avó: “quem fala bonito está a esconder alguma coisa”. Não acredito nisso por inteiro, mas quando uma página se enfeita antes de dizer o que quer, fico desconfiada. Entrei na revisão por acaso. Uma editora pequena precisava de alguém para limpar provas atrasadas de romances de bolso, e uma amiga deu o meu nome porque eu era “a chata das vírgulas”. Aceitei porque precisava de pagar renda. O primeiro livro que corrigi tinha três grafias para o mesmo apelido, um morto que falava no capítulo seguinte e diálogos sem disciplina. Perdi uma noite inteira a fazer uma tabela de nomes. Ninguém me pediu. Ninguém me pagou por isso. Continuei a fazê-lo. Hoje trabalho sobretudo com Fiction, em romances, novelas e contos. A minha praia é a correcção de texto: ortografia, pontuação, consistência, tempos verbais, tratamento, nomes, continuidade de pequenos factos. Sou menos útil quando um autor quer que eu admire uma frase só porque ela soa literária. Prefiro uma frase limpa que aguenta peso a uma frase vistosa que pede licença para ser olhada.

  • Retrato de Helena Andrade Semedo

    Helena Andrade Semedo

    Editora de Linha e Coach de Escrita de Ficção

    Nasci em Setúbal e cresci entre a casa da minha avó cabo-verdiana, onde se falava baixo quando havia contas por pagar, e a mercearia do meu pai, onde toda a gente tinha uma versão diferente da mesma história. Ainda hoje ouço diálogos como se fossem duas pessoas a tentar não dizer a coisa principal. Não acho que isso seja uma virtude. É só uma forma de atenção que ficou. Aos dezassete anos, trabalhei um Verão inteiro numa lavandaria em Tavira porque a minha tia precisava de alguém ao balcão. Dobrei toalhas, separei camisas, aprendi a reconhecer turistas pelo modo como pediam desculpa antes de reclamar. Não me tornou melhor editora de forma limpa. Mas ainda cheiro o vapor das máquinas quando leio cenas domésticas demasiado bonitas. Há uma parte de mim que desconfia de casas onde nada está fora do sítio. Entrei na edição por conveniência, não por destino. Um amigo que fazia legendagem adoeceu e pediu-me para o substituir em três episódios de uma série policial espanhola. Eu precisava do dinheiro. Depois vieram revisões de catálogos, sinopses de editoras pequenas, contos em revistas e, mais tarde, romances. A line editing ficou porque eu gostava do ponto exacto em que uma frase deixa de explicar e começa a agir. Hoje trabalho sobretudo com Fiction, em romance, novela e conto. Leio devagar, às vezes devagar demais. Sei que tenho um preconceito contra prosa muito lírica quando ela chega antes da intenção da personagem. Estou consciente disso e não tento apagá-lo por completo, porque muitos manuscritos usam beleza verbal para evitar decisões. Corrijo o excesso quando ele esconde a acção; deixo-o ficar quando a voz sabe pagar o preço.

  • Retrato de Inês Monteiro Kapitango

    Inês Monteiro Kapitango

    Editora Generalista de Ficção e Leitora Beta Profissional

    Cresci entre Lamego e o prédio da minha avó em Massamá, com a televisão sempre alta e os adultos a falar por cima uns dos outros. A minha mãe trabalhava por turnos num lar. O meu pai vendia peças para maquinaria agrícola e tinha a mania de corrigir anúncios de rádio. Em miúda eu escrevia finais alternativos para as telenovelas, não porque quisesse ser editora, mas porque me irritava quando uma personagem sofria três meses e depois era salva por uma carta encontrada numa gaveta. Na universidade fui para Estudos Portugueses no Porto porque era o curso que eu conseguia pagar ficando em casa de uma tia. Durante algum tempo achei que ia dar aulas. Depois uma livraria onde eu trabalhava fechou, e aceitei fazer relatórios de leitura para uma pequena chancela porque uma colega adoeceu e alguém tinha de entregar fichas naquela semana. Não foi uma revelação. Foi trabalho. Eu lia no autocarro, no balcão de uma pastelaria, na cozinha enquanto o arroz passava do ponto. Também passei oito meses a fazer inventário num armazém de material dentário em Vila Real. Isto não me tornou melhor editora, penso eu. Só me deixou com o hábito absurdo de alinhar canetas por tamanho e desconfiar de caixas sem etiqueta. Ainda hoje, quando um manuscrito muda uma regra a meio, sinto a mesma comichão nas mãos que sentia quando encontrava uma broca no tabuleiro errado. Não faço grande teoria disso. Aconteceu. Carrego uma frase da minha avó: “Quem espera autorização acaba a servir o prato frio.” Não concordo com a crueldade dela quando dizia isto. Também não a repito a autores como verdade. Mas noto que procuro a decisão antes de procurar a beleza. Se uma personagem só reage, a minha paciência acaba depressa. Sei que isto me torna menos generosa com ficção contemplativa e com narradores paralisados. Não tento corrigir totalmente esse viés. Aviso-o cedo e trabalho a partir daí.

  • Retrato de Lídia Semedo Valente

    Lídia Semedo Valente

    Editora de Linha e Coach de Escrita de Não Ficção

    Cresci no Barreiro, num prédio onde se ouviam panelas, rádios e discussões pelo pátio interior. A minha avó cabo-verdiana contava histórias como quem arrumava gavetas: tirava uma coisa, dobrava outra, deixava uma carta antiga por explicar. O meu pai dizia muitas vezes que quem se explica demais está a esconder alguma coisa. Ainda o ouço quando um parágrafo insiste no mesmo ponto. Não concordo com a frase. Também não a mandei embora. Estudei tradução em Lisboa porque tinha jeito para línguas e porque parecia uma escolha segura. Não houve grande chamamento. Houve propinas, passes caros e uma bolsa que não chegava ao fim do mês. Durante um verão trabalhei numa loja de material eléctrico em Coina, a organizar facturas e a aprender nomes de tomadas que nunca mais usei. Ainda sei distinguir alguns disjuntores pelo aspecto. Isso não me tornou melhor editora. Só ficou comigo. Entrei na edição por substituição de baixa numa pequena chancela que publicava memórias, ensaio narrativo e livros práticos. A vaga era temporária, mas a pessoa não voltou logo e eu fiquei a corrigir capítulos de gente que confundia intensidade com repetição. Mais tarde passei por relatórios de seguradoras, entrevistas transcritas e manuscritos de testemunho. Ganhei ouvido para frases que parecem claras mas desviam o leitor no terceiro verbo. Hoje edito sobretudo Non fiction ao nível da linha. Não finjo neutralidade total. Tenho pouca paciência para prosa que usa brilho para escapar a uma afirmação concreta, e não tento corrigir esse preconceito. Prefiro assinalá-lo. Leio como alguém que quer acreditar no texto, mas não vai ajudá-lo a esconder a mão. Se uma frase promete precisão, cobro precisão. Se promete intimidade, cobro risco.

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